Uma instalação digital interativa onde o público se torna co-criador. Ao interagir com a flauta, o participante aciona sons da natureza do Cerrado, gerando um espetáculo visual de luzes e ilustrações na tela, atuando como um músico das maravilhas na preservação da memória do nosso bioma.
SOBRE O PROJETO
A Flauta Digital - Cerrado é uma instalação física e digital que transforma o público em agente co-criador de uma paisagem audiovisual viva.
Nascida como uma evolução direta da "Flauta Mágica" original (2019-UFRN, Projeto 10 Dimensões) que convidava o interator a manipular sons inspirados em espaciais manipulados por uma flauta e ouvidos em uma "Caixa Mágica espelhada" com autofalantes, luzes e fumaça;
A versão da obra para a experiência Exploratorium volta sua escuta para a terra. O foco sai do cosmos e aterrissa na urgência climática e na riqueza territorial do bioma brasileiro, unindo arte, conservação e tecnologia.
EXPERIÊNCIAS E INTERAÇÕES
A dinâmica principal ocorre através de uma flauta transversal adaptada com tecnologia embarcada. Em vez de emitir notas musicais convencionais ou frequências estelares, o instrumento funciona como um disparador de memórias ecológicas. Ao pressionar as chaves, o participante assume o papel de regente do ecossistema, controlando o ritmo, o volume e as texturas sonoras de espécies vitais do Cerrado:
ONÇA - PINTADA
Predador de topo e regulador máximo da biodiversidade, a onça-pintada atua como o principal termômetro das mutações do território. A fragmentação das matas ciliares destrói seus corredores ecológicos, confinando indivíduos em fragmentos exíguos de floresta sem presas naturais suficientes (como antas, capivaras e queixadas). Conduzidas pela inanição aos limites das propriedades rurais, as onças abatem o gado e, em consequência, tornam-se alvos sistêmicos de caça retaliatória por fazendeiros, sendo executadas a tiros em conflitos diretos de expansão territorial.
TAMANDUÁ - BANDEIRA
Moldado evolutivamente para perfurar o solo duro do Cerrado, o tamanduá enfrenta uma vulnerabilidade crítica diante das queimadas induzidas pelo agronegócio. Sua pelagem espessa e altamente inflamável, aliada à locomoção lenta, faz dele uma das vítimas primárias do fogo. Nas tentativas de fuga, o animal cruza rodovias (como a BR-262, um dos maiores cemitérios da espécie no país). Sua visão limitada, audição deficiente e a pelagem escura que absorve a luz dos faróis o tornam praticamente invisível à noite, resultando em mortes massivas por atropelamento enquanto busca novos cupinzeiros em áreas devastadas.
ARARA - CANINDÉ
Embora ostente uma capacidade de voo formidável, a Arara-canindé sofre com o colapso estrutural de seu ecossistema. A espécie depende estritamente de árvores de grande porte e palmeiras mortas de troncos ocos (como o buriti) para fazer seus ninhos. A derrubada sistemática dessas matrizes arbóreas e a queima de áreas de preservação impedem seu ciclo reprodutivo natural. Somado à destruição de seu berçário, o tráfico internacional, impulsionado pelo mercado ilegal de aves exóticas, frequentemente retira filhotes inteiros dos ninhos, desestabilizando a dinâmica populacional de pares monogâmicos de longo prazo.
SAGUI - DO - RABO - PRETO
Endêmico das faixas de transição e do Cerrado profundo, este primata depende da continuidade e adensamento das matas de galeria (as florestas que protegem os rios). O desmatamento agressivo isola suas populações em "ilhas" de vegetação cercadas por soja e pasto, bloqueando o fluxo gênico e causando um gargalo na diversidade genética da espécie. Além do confinamento territorial, a extração ilegal para abastecer as redes de tráfico de animais silvestres continua a esvaziar as matas remanescentes de suas populações nativas.
BEM - TE - VI
Representante de resistência sonora e adaptação urbana, o Bem-te-vi atua nesta instalação como um bioindicador silencioso das mutações químicas invisíveis. Por ser uma espécie primariamente insetívora em um bioma cercado por imensas faixas de atividade agrícola, a ave acumula em seu organismo os agrotóxicos e pesticidas pulverizados diariamente nas lavouras. A toxicidade presente em sua cadeia alimentar reflete a contaminação massiva do solo e do lençol freático das chapadas goianas, provando que mesmo as espécies de menor risco de extinção operam hoje sob permanente estresse bioquímico.
LOBO - GUARÁ
O maior canídeo da América do Sul exige vastas extensões de savana aberta para sua sobrevivência. A conversão acelerada do relevo do Cerrado em latifúndios de monocultura e pastagens fragmenta seu território de caça, forçando o animal a migrar para bordas rodoviárias e urbanas. Essa proximidade resulta em altos índices de atropelamentos e na exposição letal a patógenos transmitidos por cães domésticos (como parvovirose, raiva e cinomose). A supressão da lobeira fruto base de sua dieta e do qual é o principal disseminador compromete não apenas a nutrição do lobo, mas a regeneração natural de toda a flora associada.